
Belo Horizonte - 20 de fevereiro de 2009
Sexta-feira – 21:00h
Direita e Esquerda: no movimento estudantil da UFOP a distinção existe e vale.

No decorrer desta semana que antecede o carnaval, tive a oportunidade de me envolver em um debate (em comunidade virtual) acerca das repúblicas estudantis em Ouro Preto, em que afirmei que o movimento que se opõe à existência das repúblicas se vale de práticas de direita, embora se afirme de esquerda.
Na oportunidade, um dos membros mais assíduos da comunidade me questionou quanto ao uso dos termos esquerda e direita, e se seria possível fazer “juízo de valor com base nesses rótulos”. Trata-se de uma questão pertinente. Seriam mesmo estes termos sem nenhum significado? Ou será que ainda podem exercer algum papel no discurso político referenciado no movimento estudantil da UFOP? Esta postagem traz algumas reflexões sobre o tema.
Abaixo o questionamento, seguido de minhas ponderações:

A questão da distinção:
É de se admitir que as noções de esquerda e direita estejam desgastadas, mas não ao ponto de se tornarem inúteis em todo e qualquer discurso político. Não serei eu o "dono" da distinção a que todos devam se submeter. Posso, contudo, explicar o que entendo por esquerda e direita, e os motivos pelos quais, em meu ver, o movimento anti-repúblicas faz política de direita.
Para o caso, acredito que possamos partir do critério de Bobbio (Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Norberto Bobbio, São Paulo: Unesp), segundo o qual a distinção deve estar fundada no juízo que se tenha acerca do ideal de igualdade. Em outras palavras, será tão mais de esquerda o entendimento, o discurso e a prática que estejam alinhados aos ideais de igualdade; e o contrário para a direita.
Por outro lado, me afasto de Bobbio, pois penso que entre posições igualitárias, será ainda mais de esquerda aquela que aponte para o respeito à liberdade.
O discurso anti-repúblicas.
Os membros da comunidade da UFOP no ORKUT já estão cansados de saber o que afirmarei agora: Há um movimento ativo anti-repúblicas na comunidade.
Basicamente, seus membros argumentam que as repúblicas são bens públicos, e que o sistema de organização em repúblicas deveria estar fundado em um critério de admissão restrito unicamente à carência sócio-econômica. Ou seja, sendo o cidadão carente, isto seria o suficiente para a sua admissão, sem que fosse cogitado qualquer outro critério, como responsabilidade pela manutenção do patrimônio, convivência pacífica com os demais moradores, etc.
Não entrarei, aqui, no debate acerca dos equívocos deste entendimento, fiz-lhe menção, unicamente, para dizer que, com base em tal discurso, o movimento anti-repúblicas se apresenta como o paladino do direito à moradia para todos, esgrimindo um discurso falsamente inclusivo (a republica é do povo), e, assim, falsamente de esquerda.
Pretendem-se, portanto, de esquerda.
O discurso e a prática.
Como vilãs a impedir a concretização do ideal de moradia para todos, tal movimento aponta as repúblicas federais e, assim, se nega a oferecer qualquer alternativa que possa com elas coexistir, postulando, tão somente, que a solução para a moradia seja a destruição da cultura republicana. E assim, no discurso e na prática, mais relevante que o objetivo de inclusão (que só pode ser alcançado com a participação das repúblicas), é o de destruição de uma cultura.
Assim, o que parecia igualitário (discurso), se mostra excludente (prática). E a lógica que passa a reger a prática política passa a ser a de que, para que possa existir o que eu quero, é preciso destruir o que outros querem.
Igualdade e pluralismo.
Qualquer ideal de igualdade que se pretenda democrático, e apto ao mundo pluralista em que vivemos, há de considerar o valor de diversas formas de ver o mundo, de diversas formas de convivência, sem que uma delas deva ser tida como superior ou correta. De esquerda, neste contexto, é o pluralismo, e, portanto, a igualdade não pode significar a planificação da vida em sociedade, mas a abertura a formas plurais de convivência, sem que uma deva ser considerada a correta em relação às demais.
Sob tal ótica, a política do movimento anti-republica se mostra claramente de direita, senão, vejamos:
O principal eixo da política do movimento tem sido a tentativa incessante de estigmatizar as repúblicas, criando uma série de estereótipos preconceituosos aos quais pretendem reduzir a cultura republicana. Trata-se, em suma, de uma forma de desumanização.
Posso dar como exemplo o desenho, ao lado, que se encontra no blog do principal grupo que tem sustentado a política do ódio ás repúblicas na UFOP: o “Coletivo Amar e Mudar as Coisas”. É claramente a tentativa de retratar os republicanos como primatas.
Se usassem tal imagem para representar cidadãos de origem afro-brasileira, possivelmente estivessem presos. Talvez, o próprio autor do desenho visse nisso algum preconceito. Mas contra os republicanos vale tudo. É legitimo desumanizá-los.
Assim é que a tal luta pelo direito à moradia se transforma, a olhos vistos, no mais horrendo tipo de preconceito e discriminação. Tudo se resumindo a uma única frase: quem concorda com a cultura republicana é sádico e primata.
Tal espécie de preconceito, esse sentir-se "superior" e pretender a eliminação do que é diferente. Isso é, sim, política de direita, aqui e em qualquer lugar. Só que aqui é travestida.
A dois pontos principais se refere a minha crítica: preconceito e desumanização.
O fim das repúblicas como Panacea
A desumanização dos republicanos não é tudo. Há, também, o "hábito" de relacionar problemas sociais às repúblicas, de modo que se apresentem não mais como um problema da sociedade, mas das repúblicas. Tudo de modo a aparentar que, extintas as repúblicas, extintos estariam os problemas.
É o caso da questão da homofobia na UFOP. Esse não é um problema das repúblicas federais, mas da sociedade brasileira. As repúblicas não são fábricas de homofóbicos, mas sim a sociedade na qual estão inseridos os republicanos. O próprio movimento anti-repúblicas, ao usar a lenda "urbano-barroca" da "mantegada" para atacar a cultura republicana, demonstra um viés homofóbico.
A homofobia está na sociedade, e é algo que devemos denunciar, sem deixar, contudo, de policiar a nós mesmos. Mas os "primatas", obviamente, não podem ser vistos como um reflexo da sociedade, afinal, a cultura republicana só pode ser a fonte de todos os males.
Círculo vicioso?
Na medida em que o movimento mira a destruição da cultura republicana, outro aspecto deve ser considerado, afinal, torna-se, tal qual a luz para insetos perdidos na noite, um ímã de ressentidos com as republicas, pelos mais variados motivos.
Isso pode levar a um círculo vicioso de política de ódio ás repúblicas.
Devo concluir a postagem
Particularmente, não participo desta disputa. Tenho lá a minha ação na sociedade, mas não está relacionada ao movimento estudantil organizado. Por isso, infelizmente, não disponho do tempo necessário para escrever tudo o que penso acerca da luta que envolve as repúblicas. Há, inclusive, aspectos acerca do papel do Estado, que são relevantes, merecem ser tratados, e não serão (ao menos não ainda).
Por isso concluo reafirmando o que me parece.
O movimento anti-repúblicas, até que reconheça a contribuição da cultura republicana como um dado da realidade, e parta disso para a construção de suas alternativas políticas, será apenas um movimento “anti”, ao qual apenas a destruição de algo interessa.
Sim, eu qualifico como "de direita" (do preconceito e de ódio) as práticas e a lógica política do movimento anti-repúblicas organizado, ao menos tal como vem se desenvolvendo até agora.