Belo Horizonte - 16 de novembro de 2008
Domingo – 18:30h
Lições de Beakman I - Perguntas e respostas em sala de aula.
Em algum momento do futuro, espero discorrer acerca da "grandeza" da série “O mundo de Beakman”, da década de 1990, e com 91 episódios (Wikipédia).
Nesta postagem farei referência ao programa unicamente para tratar de algo que, no episódio (sétimo de 1992) "Eletricidade, Beakmania e Lâmpada Elétrica", é objeto de piada, mas que acontece com razoável freqüência em salas de aula, principalmente em se tratando de alunos dos períodos iniciais do curso de direito ou, como imagino, de quaisquer outros cursos superiores.
Refiro-me às situações em que o discente busca alguma informação através de pergunta que, fria e formalmente analisada, não aponta contundentemente para a informação desejada. E nesses casos, é comum que o docente responda não aquilo que o aluno busca saber, mas aquilo que efetivamente perguntou.
Abaixo o vídeo de parte do episódio:
Obs: caso o seu navegador seja o Internet Explorer (IE), e o vídeo abaixo apresente problemas, recomendo a instalação do respectivo plug-in, ou de outro navegador, tal como o FireFox ou o Safari, ambos, quanto a isso, superiores ao IE. Ou, ainda, veja direto no YouTube.
Vejamos o exemplo:
2:17m Pergunta: Por que as tomadas elétricas sempre têm dois pinos?
2:25m Resposta: As tomadas elétricas não têm sempre dois pinos. Algumas têm 3. Próxima pergunta.
O que fez o Beakman? Ao invés de tratar do motivo pelo qual as tomadas elétricas têm “ao menos” dois pinos, ofereceu resposta que consistiu em apontar a falha em um pressuposto da pergunta para, por fim, desqualificar o questionamento, dando-o por respondido.
Isso é algo que ocorre na prática acadêmica todo o tempo. Não em casos assim, tão óbvios como o do exemplo, até mesmo porque, no programa, trata-se de uma piada. Mas em outras oportunidades, nos casos em que o questionador não esteja familiarizado com o assunto ao qual a pergunta se refira, há a possibilidade de a pergunta não veicular exatamente o que o indagador queira saber.
Posso dar um exemplo com o qual tive contato através de um fórum no orkut. A postagem se referia a uma sentença de primeiro grau, da lavra do Juiz Renato Zouain Zupo, que, em sede de Habeas Corpus preventivo, declarou a inconstitucionalidade de dispositivos referentes à “Lei Seca”.
Em referência ao tema, em uma das postagens alguém perguntou: “mas e ai???? quando rola o julgamento no congresso????”. Ora, neste caso, a reposta “a la Beakman” seria a seguinte: “Não rola julgamento no Congresso. Próxima pergunta”.
E é neste ponto que o programa do Beakman nos oferece um mote para a reflexão:
O professor, em sala de aula, deve se limitar a responder o que foi perguntado? Ou deve, ainda, tentar oferecer resposta não apenas ao que se pergunta (mesmo que através da indicação do caráter absurdo da pergunta), mas também ao que poderia ser o verdadeiro objeto do questionamento?
Continuemos com o Beakman, e vejamos como ele é ajudado, e ainda assim se atém a responder apenas o que, formalmente, lhe é questionado. O que não é suficiente:
Ainda assim, a informação dada não responde ao que foi buscado por meio das perguntas.
Até que, por fim, a utilíssima ajudante organiza a pergunta de modo que o professor a possa entender.
3:09m Pergunta: Mas, por que, Beakman, as tomadas têm pelo menos dois pinos?
E é só então, finalmente, que Beakman formula a resposta buscada.
Essa rápida passagem, de não mais que um minuto de duração, além de divertida, leva à reflexão sobre como deve o professor, ao vivo e em 3D, receber e processar as perguntas que lhe são formuladas em sala de aula.
As pessoas não perguntam, sempre, exatamente, o que querem saber. Há quem apresente apenas as perguntas que consiga formular, em face daquilo o que já sabe e do que pretende saber. O docente deve estar preparado para isso, e deve buscar dar resposta não apenas à pergunta que lhe foi formulada, mas também àquela que está no discente, ainda que mal organizada. Mesmo que, para tanto, deva reconstruir conceitos, organizar a terminologia e esclarecer os pressupostos.
Algo simples, mas nem sempre óbvio, é o que nos ensina o bom e velho Beakman: Há casos em que a resposta do professor não pode se limitar ao que lhe é perguntado.