Belo Horizonte - 09 de junho de 2009
Terça-feira - 23h50min
A imprensa e o Blog da Petrobras: entenda o caso.
A CPI da Petrobrás está posta. A esta altura, esteja com quem estiver a razão, o certo é que a CPI existe, e, bem ou mal, o que dela se espera é que desenvolva algum trabalho em favor da companhia.
Mas no plano dos fatos, é da natureza das CPIs causar danos. Seja pela publicidade de que se revestem, seja pela esculhambação com que os parlamentares as conduzem, as CPIs produzem espetáculos midiáticos (factóides) e queimam filmes. Como se não bastasse, some-se a isso as táticas lacerdistas da oposição no Congresso, e o circo está armado para que a Petróleo Brasileiro S.A. seja exposta em praça pública.
O pessoal na Petrobras compreende a situação, e já se prepara para enfrentar eventuais ataques à imagem da companhia. Exemplo disto é o Blog criado para prestar informações e aclarar o posicionamento da mesma acerca das questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O nome do Blog é Petrobrás - Fatos e Dados.
A grande imprensa, contudo, não aprovou a iniciativa
O Jornal o Globo Online, por exemplo, criticou duramente o Blog, acusando-o de ser veículo para o vazamento de informações obtidas por jornalistas:
"Alvo de suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos, a Petrobras criou um blog para vazar informações obtidas por jornalistas que investigam indícios de irregularidades nos negócios da estatal. Nos últimos dias, o blog quebrou a confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa da estatal por jornalistas dos principais veículos de imprensa do país.
Já foram alvo da tática da empresa profissionais do GLOBO, da "Folha de S.Paulo" e de "O Estado de S.Paulo", que procuraram a Petrobras para cobrar esclarecimentos e ouvir a sua versão dos fatos antes de escrever as reportagens."
A ANJ - Associação Nacional de Jornais, através de seu comitê de Liberdade de Expressão, também protestou:
O Jornal Estado de São Paulo Online informou, em nota, ter o mesmo posicionamento da ANJ. Ainda assim, noticiou a querela com certa imparcialidade, mas com viés anti-blog, perceptível na insossa citação "pelas metades" da opinião de Cezar Britto:
O Jornal Folha de São Paulo, por sua vez, seguiu a manada, e divulgou nota criticando a Petrobrás.
Pontuemos: o que tem incomodado a imprensa não é existência de um Blog, mas o fato de a Petrobras tornar públicas, através deste meio, as perguntas feitas por jornalistas, antes mesmo de as entrevistas serem publicadas no meio de comunicação entrevistador.
Segundo o entendimento dos jornais referidos, dita divulgação desrespeitaria direitos dos jornalistas no exercício da profissão. Em outras palavras, seria vedado ao entrevistado tornar público o conteúdo de uma entrevista que tenha concedido. Trata-se como é intuitivo, de uma interpretação descabida das prerrogativas funcionais do jornalista. Do direito, contudo, tratarei em outra postagem.
Afora as questões de direito, é inegável que a publicização das perguntas feitas pelos jornalistas oferece um meio para que o leitor possa, criticamente, avaliar a edição da entrevista feita pelo veículo de comunicação. O público, assim, tem instrumentos para saber não apenas o que foi perguntado, mas, também, como o jornalista utilizou as perguntas feitas, e se apresentou as respostas tal como dadas pelo entrevistado. Indubitavelmente, tanto o jornalista quanto o meio de comunicação ficam bem mais expostos à análise critica de seu trabalho.
Quanto a isto, a postagem de Carlos Castilho no Observatório da imprensa é esclarecedora. Abaixo reproduzo uma passagem do texto "Petrobras entra na blogosfera e enfrenta oposição dos grandes jornais":
"A irritação dos jornais vem do fato de que o blog da Petrobras permite uma comparação entre o que a empresa forneceu aos jornalistas e o que foi publicado. Com isto é possível identificar erros de contexto, omissões e equívocos de transcrição.
(...) fica evidente que a imprensa não digeriu o blog Fatos e Dados porque ele abre espaço para a ampliação da transparência nas relações dos veículos de comunicação com a sociedade. Agora, qualquer pessoa física ou jurídica tem a possibilidade de usar a Web para acessar a opinião publica diretamente, sem passar pelo filtro da mídia."
Pois bem, esta é a imprensa que temos. Antes de tudo, defensora do próprio umbigo. E agora se opõe a uma publicização de informações dotada de grande interesse público, e que aprofunda o acesso à informação e a recepção crítica do trabalho da grande imprensa. É a isto que os grandes jornais do país se opõem.
E porque o fazem? Fazem-no para manter a possibilidade de míseros furos jornalísticos. Ou seja, fazem-no na defesa de interesses privados e próprios.
Esta é a imprensa que temos.
Pensemos.